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“Fui uma desbravadora”: a trajetória da primeira engenheira agrônoma de Mato Grosso do Sul

Campo Grande, 23 jun 2026 às 14:38

Historicamente dominado por homens, o setor agropecuário vem passando por uma transformação significativa. Em Mato Grosso do Sul, esse movimento já aparece nos números. Em 2025, o Crea-MS registrava 4.615 engenheiros agrônomos ativos, dos quais 920 eram mulheres. Embora ainda representem minoria na profissão, elas têm ampliado sua presença e protagonismo no campo.

Mas, se as mulheres ainda encontram desafios e barreiras impostas por uma cultura que muitas vezes subestima a capacidade das mulheres atuarem nas áreas pelo simples fato de serem que são, imagine o mesmo cenário na década de 1970, há 50 anos.

“Eu fui uma desbravadora; abri caminhos,” conta Olinda Barbosa Marques de Souza, a primeira engenheira agrônoma de Mato Grosso do Sul, formada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Hoje, aos 81 anos, tem a mesma disposição que marcou sua história.

Nascida em Aquidauana, no interior do Estado, desde pequena Olinda teve muitos estímulos de crescimento e, assim, ainda adolescente, embarcou para cursar o então científico em São Paulo. “Eu fui entrando, fui avançando, lá de Aquidauana para uma universidade de São Paulo.

 A agronomia não foi sua primeira opção, já que História Natural era motivo de insistência ao prestar vários vestibulares.  O convite de uma colega de pensionato para visitar os familiares em Piracicaba foi conclusivo para o despertar pela profissão. “Eu pensei: venho de família rural, minha família tem terras, eu vou casar com a agronomia! Entrei em 1966. Em uma turma de 200 alunos, éramos 11 mulheres; mas eu fui sentir essa dificuldade depois de formada, quando já casada e de volta ao Estado, em 1970, busquei por emprego em uma fazenda e fui recusada já que lá havia muitos conflitos de terra e, segundo os responsáveis, não era lugar para uma jovem recém-casada,”, contou.

Os conhecimentos trazidos da Esalq, a disposição para crescer profissionalmente e a necessidade de crescimento de uma região do Estado que ainda nem havia sido criado foram a oportunidade que Olinda precisava para, novamente abrir caminhos, dessa vez na área de planejamento.  Sua atuação na Comissão Estadual de Planejamento (Cepa) e no desenvolvimento do Plano Municipal de Desenvolvimento Rural, na então Empaer, foram trabalhos que a levaram a integrar a equipe de elaboração de um projeto de desenvolvimento rural para o Banco Mundial. “Rasguei espaço novamente”, comemorou.

Em 2019, Olinda foi homenageada com o Diploma de Honra ao Mérito Legislativo 40 anos do Crea-MS

Como para toda mulher que opta por conciliar a maternidade com os desafios do mercado de trabalho, com Olinda não foi diferente. E, como quem viveu a experiência há poucos dias, ela mantém fresca na memória a lembrança de uma das inúmeras viagens que fez nesse período. Já mãe de um casal de filhos, precisou levar a filha ainda bebê, uma babá para auxiliá-la nos cuidados e uma mala com garrafas de água e alimentos em uma viagem a um estado da região Norte do Brasil, no início da década de 1980, sem saber o que encontraria nos dias em que estaria longe de casa.

Hoje aposentada e com muita vitalidade, Olinda dedica-se aos cuidados à família e à religião que a permite exercer a caridade na sua forma mais simples.

23 de junho –  Registros do Crea-MS apontam que do total de profissionais registrados no Estado, 11.549 são homens e 3.237 são mulheres, ou seja, pouco mais de 28%. Os dados evidenciam a importância de promover a participação de mulheres na engenharia, agronomia e geociências, que, apesar de ter crescido nos últimos anos, ainda permanece baixa.

Considerando esses aspectos, em 2014, a instituição britânica Women’s Engineering Society estipulou a data de 23 de junho como o Dia Internacional das Mulheres na Engenharia. A iniciativa surgiu com o objetivo de fortalecer e promover reflexões acerca do espaço que as mulheres vêm ganhando em uma área ainda predominantemente masculina.

Janine Monteiro
Equipe de Comunicação do Crea-MS