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Cálculo já não basta para formar o engenheiro do futuro

Campo Grande, 24 jul 2026 às 13:42

Durante décadas, a formação em engenharia esteve associada a uma imagem clássica: domínio da matemática, das ciências exatas e das técnicas de projeto. Hoje, essa visão já não dá conta da complexidade dos desafios enfrentados pelos profissionais da área. Em um cenário marcado pela inteligência artificial, pela transição energética, pelas mudanças climáticas e por demandas sociais cada vez mais complexas, a engenharia passa por uma transformação que vai além da tecnologia: ela alcança a própria forma de ensinar e aprender.

Essa mudança ganhou respaldo institucional em 2019, quando o Conselho Nacional de Educação publicou a Resolução CNE/CES nº 2, que atualizou as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos de Engenharia. A nova regulamentação substituiu o modelo centrado na transmissão de conteúdos por uma formação baseada em competências, incorporando habilidades como pensamento crítico, trabalho em equipe, comunicação, liderança, empreendedorismo, ética e aprendizagem contínua.

Para o coordenador da Comissão de Educação e Atribuição Profissional (Ceap) do Confea, conselheiro federal Osmar Barros, a atualização aproximou a formação brasileira dos principais referenciais internacionais de ensino em engenharia.

“O apoio do Confea foi bastante favorável. Entendíamos que era necessário formar profissionais capazes de resolver problemas complexos e não apenas dominar conteúdos técnicos”, afirma. Segundo ele, o Sistema Confea/Crea também defendeu a adoção de metodologias ativas, projetos integradores e maior aproximação entre universidades e empresas.

conselheiro federal Osmar Barros Júnior
Conselheiro federal Osmar Barros, coordenador da Comissão de Educação e Atribuição Profissional – Ceap

Ao mesmo tempo, o Confea sustentou a necessidade de preservar a solidez da formação técnica. A carga horária mínima de 3.600 horas foi mantida como forma de garantir que a flexibilização curricular não comprometesse os conhecimentos indispensáveis ao exercício profissional.

O engenheiro como tradutor de mundos

A emergência da inteligência artificial tornou ainda mais evidente a necessidade dessa transformação.

Se antes a formação preparava profissionais para operar ferramentas, hoje ela precisa formar pessoas capazes de interpretar, supervisionar e questionar os resultados produzidos por sistemas cada vez mais sofisticados. Nesse contexto, o diferencial do engenheiro deixa de estar apenas na execução técnica e passa a envolver julgamento crítico, capacidade de diálogo e compreensão das necessidades humanas.

“A sociedade contemporânea precisa formar engenheiros críticos, não apenas operadores de ferramentas”, afirma a presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), Adriana Tonini. Segundo ela, os currículos ainda estão correndo para acompanhar a velocidade das mudanças trazidas pela IA.

A avaliação dialoga com uma percepção crescente entre especialistas em educação e inovação: à medida que máquinas passam a executar tarefas técnicas com rapidez e precisão, aumenta o valor das competências exclusivamente humanas, como criatividade, colaboração interdisciplinar, comunicação e tomada de decisão ética.

Nesse novo cenário, o engenheiro tende a assumir um papel de articulador entre tecnologia, empresas, governos e sociedade, traduzindo necessidades sociais em soluções tecnológicas viáveis.

Mais do que técnica

Para Tonini, a discussão sobre o futuro da engenharia não pode ser reduzida a uma disputa entre disciplinas técnicas e conteúdos humanísticos.

“Quando falamos da tensão entre valores humanos e os interesses de um mercado em expansão, estamos nos referindo aos desafios de construir uma formação não somente tecnicista, mas também generalista e humanista”, explica. Segundo ela, questões sociais, ambientais e éticas precisam fazer parte da formação para que os profissionais sejam capazes de refletir criticamente sobre os impactos das tecnologias que desenvolvem.

A mudança responde a demandas cada vez mais presentes na atuação profissional. Projetos de infraestrutura, sistemas de mobilidade, soluções de saneamento, tecnologias digitais e iniciativas de transição energética exigem diálogo com comunidades, análise de impactos ambientais, gestão de equipes multidisciplinares e compreensão de aspectos regulatórios e sociais.

“O engenheiro não resolve apenas problemas técnicos; ele propõe soluções que dialogam com valores humanos, sociais e ambientais”, afirma Tonini.

A implementação ainda avança lentamente

Embora as novas diretrizes estejam em vigor há sete anos, a incorporação efetiva do modelo por competências ainda enfrenta obstáculos.

Segundo a presidente da Abenge, a mudança exige revisão dos projetos pedagógicos, capacitação docente e adoção de novas metodologias de ensino, fatores que ajudam a explicar a lentidão do processo.

“Pouco se avançou na atualização dos currículos de Engenharia nesse sentido”, avalia.

Ela também reconhece que existe resistência entre parte dos docentes mais acostumados a modelos tradicionais de ensino, centrados em aulas expositivas e disciplinas compartimentalizadas. Para enfrentar esse desafio, a Abenge promove debates, capacitações e iniciativas como o Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (Cobenge), principal fórum nacional sobre o tema.

Formação e atribuições profissionais

Do ponto de vista do Sistema Confea/Crea, a transformação curricular exige atenção permanente para assegurar que a ampliação de competências não ocorra em detrimento da formação técnica necessária ao exercício profissional.

Segundo Osmar Barros, cada novo currículo precisa ser analisado à luz dos conteúdos formativos e profissionalizantes oferecidos, uma vez que são eles que fundamentam a concessão das atribuições profissionais dos futuros engenheiros.

“A carga horária é importante, mas os conteúdos programáticos das disciplinas é que nortearão a concessão das futuras atribuições profissionais”, destaca.

O conselheiro também chama atenção para a necessidade de reduzir o descompasso entre formação acadêmica e exercício profissional, especialmente diante da expansão de cursos e modalidades de ensino. Para ele, os processos de avaliação da educação superior deveriam considerar com maior peso aspectos relacionados à prática profissional.

Presidente da Abenge, eng. civ. Adriana Tonini
Presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), Adriana Tonini

Uma competência que se tornou estratégica

Entre as habilidades socioemocionais consideradas mais relevantes para a nova geração de engenheiros, Tonini destaca a resiliência.

“Os jovens não estão sabendo enfrentar adversidades e situações complexas com equilíbrio emocional”, afirma. Para ela, a capacidade de adaptação, reinvenção e persistência tornou-se fundamental em um ambiente profissional marcado por mudanças aceleradas e desafios inéditos.

A observação revela uma transformação importante: a formação em engenharia passa a reconhecer que competências humanas não são acessórios da atuação profissional, mas elementos centrais para lidar com problemas que não possuem respostas prontas.

Uma engenharia mais diversa e inclusiva

A discussão também tem impactos sobre a permanência de mulheres nos cursos de engenharia.

Coordenadora do Grupo de Trabalho Mulheres nas Engenharias da Abenge, Tonini observa que ambientes acadêmicos excessivamente focados em conteúdos técnicos e pouco sensíveis às questões humanas podem contribuir para a evasão feminina.

Na sua avaliação, currículos mais integrados, que valorizem competências sociais e humanas, aliados a programas de mentoria e políticas institucionais de combate ao preconceito, ajudam a construir ambientes mais inclusivos e favoráveis à permanência das estudantes.

O desafio da próxima década

A transformação da engenharia não significa abandonar a técnica. Pelo contrário: significa ampliar sua capacidade de responder aos problemas contemporâneos.

Em um mundo onde algoritmos calculam, simulam e projetam com velocidade crescente, o valor do engenheiro estará cada vez mais ligado à capacidade de formular perguntas relevantes, interpretar contextos complexos, tomar decisões responsáveis e compreender as consequências humanas das soluções tecnológicas.

Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: acervo