O ano era 1991. Era chegada a hora de a jovem Lígia Meaurio, então com 17 anos, optar pela carreira que seguiria e, para ela já estava decidido: cursaria Letras. A decisão teria sido essa, caso não fosse aconselhada a buscar uma profissão que proporcionasse uma condição financeira mais confortável. “Achei que a engenharia elétrica seria um bom caminho. No fim, mesmo que a escolha não tenha nascido de um sonho, eu fui me encontrando na área e construindo um caminho que deu muito certo”.
Engenheira eletricista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Lígia iniciou a carreira, em Campo Grande, em uma empresa de projetos e execuções de instalações elétricas residenciais e comerciais. “Tive a sorte de trabalhar com alguém muito especial, o engenheiro João Arakaki, que me ensinou muito”, disse.

“No início da minha carreira, sinceramente, eu não percebia diferença por ser mulher. Nem na faculdade nem nos primeiros anos. Mais tarde, lidando com prestadores de serviço, percebi que alguns tinham uma necessidade de me confrontar ou mostrar que sabiam mais em certos pontos. Isso nunca me incomodou, porque eu sabia meu papel como engenheira”, contou.
No ambiente corporativo, porém, ela deparou-se com uma realidade um pouco diferente, fato que a levou a optar por trabalhar como autônoma. “Senti um tratamento mais hostil de alguns líderes, que pareciam ter mais dificuldade em aceitar minha liderança”.
Por 18 anos, Lígia viveu no Paraná, onde atuou na área de redes de distribuição, subestações aéreas e abrigadas, além de instalações prediais. De volta a Campo Grande, passou a atuar em uma área bastante específica, como gerente de manutenção no Aeroporto Internacional de Campo Grande, função que exige habilitações e certificações que lhe permitem a trabalhar na área de equipamentos aeroportuários.
Além de engenheira, mãe – A maior parte da trajetória de Lígia foi em home office, o que deu flexibilidade para que cuidasse de seus filhos de perto, organizasse a rotina doméstica, seus horários e até mesmo viajar quando quisesse. “A principal dificuldade foi a administração financeira devido à variação de renda que o trabalho autônomo traz”.
Ainda que não tenha cursado Letras, a paixão pelas palavras não abandonou Lígia, pelo contrário. Em 2008, ao conhecer Joyce Meyer – renomada autora cristã que publicou seu primeiro livro aos 40 anos – surgiu o desejo de escrever também. “Depois de um período de muito autoconhecimento e crescimento pessoal, senti o desejo de compartilhar isso com outras mulheres. Foi assim que decidi escrever o livro Dona do meu destino, focado no desenvolvimento pessoal e espiritual”.

Apesar de, no início, ter tido dúvidas, Lígia relata que a engenharia valeu muito a pena. “Me trouxe a liberdade de trabalhar em home office, me dando mais tempo para estar com minha família. Além disso, a possibilidade de viajar a trabalho, conhecendo novos lugares e de realizar os projetos mesmo estando longe de casa, a tão famosa liberdade geográfica. E, acima de tudo, poder ver as minhas soluções sendo implementadas me faz sentir realizada”.
E se tivesse que aconselhar a Lígia de 35 anos atrás, o que você diria?
– Confia em você, porque você é capaz e vai realizar muito mais do que hoje consegue imaginar.
23 de junho – Registros do Crea-MS apontam que do total de profissionais registrados no Estado, 11.549 são homens e 3.237 são mulheres, ou seja, pouco mais de 28%. Os dados evidenciam a importância de promover a participação de mulheres na engenharia, agronomia e geociências, que, apesar de ter crescido nos últimos anos, ainda permanece baixa.
Considerando esses aspectos, em 2014, a instituição britânica Women’s Engineering Society estipulou a data de 23 de junho como o Dia Internacional das Mulheres na Engenharia. A iniciativa surgiu com o objetivo de fortalecer e promover reflexões acerca do espaço que as mulheres vêm ganhando em uma área ainda predominantemente masculina.
A engenharia elétrica, por exemplo, é a profissão com os menores percentuais de mulheres, se comparada a outras engenharias. Por aqui, dos 1.807 profissionais, 188 são mulheres, pouco mais de 10%.
Janine Monteiro
Equipe de Comunicação do Crea-MS