Notícias

Poesia, espiritismo e muitas ARTs marcam a trajetória de Mauro de Castro

Campo Grande, 27 ago 2025 às 18:25

Em suas vertentes Combate e Construção, o Exército brasileiro já celebrizou vários engenheiros militares, como Ricardo Franco de Almeida Serra, responsável pelo levantamento das fronteiras nacionais nos séculos XVIII e XIX, e ainda o patrono da Arma de Engenharia na instituição, João Carlos de Vilagran Cabrita. Ligada à engenharia eletrônica e à área de comunicações, atuando com o desenvolvimento de tecnologias, a manutenção e a operação e ainda o planejamento e a gestão como suporte às operações militares e à comunicação institucional, a engenharia de telecomunicações militar tem no Instituto Militar de Engenharia (IME) sua referência mais conhecida. Foi o caso do homenageado com a Láurea ao Mérito do Sistema Confea/Crea e Mútua, eng. telecom. Mauro de Castro (1946-2024), cuja trajetória será apresentada no Livro do Mérito. O lançamento será feito em Vitória-ES, durante a 80ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), no período de 6 a 9 de outubro próximo.

Eng. telecom. Mauro de Castro: mineiro radicado no Mato Grosso do Sul recebe a Láurea ao Mérito do Sistema
Eng. telecom. Mauro de Castro: mineiro radicado no Mato Grosso do Sul recebe a Láurea ao Mérito do Sistema

Coube a Mauro de Castro levar essa parcela de desenvolvimento para uma região ainda remota do país, lidando com todos os desafios inerentes à formação de uma nova comunidade que, então, contava 110 anos de história. Fundada em 1872, a Campo Grande de 1982 completava cinco anos como a capital do novo estado de Mato Grosso do Sul. E 110 anos em 1982 não representam tantos avanços tecnológicos como hoje pode-se supor. O crescimento da cidade se manifestava ainda muito identificado com sua natureza, com a agricultura e com a pecuária. E para os amantes da ufologia e do futebol – naquele ano em que a Canarinha abalaria o mundo ao perder para a Itália em Barcelona, na conhecida Tragédia do Sarriá –, Campo Grande e seu estádio Morenão teriam experimentado, alguns meses antes, o avistamento de um Objeto Voador Não-Identificado, durante uma partida do campeonato brasileiro entre Operário e Vasco da Gama.

De Pouso Alegre a Campo Grande

Não se sabe ao certo se Mauro de Castro já havia chegado, em definitivo, a Campo Grande, quando esse incidente ocorreu – segundo diversos relatos ao longo dos últimos 43 anos – em  6 de março daquele ano. Com sua sensibilidade de poeta e de espírita kardecista, o engenheiro que havia iniciado a carreira em Brasília, depois de se formar, em 1978 (ano de outra tragédia futebolística brasileira, esta abaixo da fronteira Sul do país, na Argentina), provavelmente ainda vivenciou aquele misticismo que possivelmente se seguiu àquela situação inusitada no estádio Morenão.

Antes de chegar a Campo Grande, ele e o irmão gêmeo, Marcius de Castro, deixaram Pouso Alegre (MG) para cursar o pré-vestibular em Itajubá, primeiro em direção à Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN), formando-se oficiais na Arma de Comunicações. A exemplo de outro irmão, Rodrigo, Marcius seguiria para a Engenharia Civil. “No final da década de 1970, Mauro, formado oficial de comunicações do Exército pela AMAN e engenheiro de telecomunicações pelo IME, foi para a diretoria de Telecomunicações do Exército, em Brasília, desenvolvendo trabalhos técnicos para manter e aperfeiçoar as ligações de rádios estratégicas para a Força. Foi também professor de Matemática da Universidade Católica”, conta o irmão Marcius, coronel reformado do Exército.

No entanto, seu primeiro contato com Campo Grande havia sido feito em 1970 (ano que todos sabem não se referir a nenhuma tragédia para o futebol brasileiro). “Era oficial de comunicações. Depois desse período, Mauro se tornou instrutor de Eletrônica na Escola de Comunicações do Exército e concluiu o IME. Até que em 1982, retornou para Campo Grande como chefe do Serviço de Rádio do Exército, responsável pelas ligações do Comando Militar do Oeste, nos estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia. Ele conduzia a implantação dos projetos de telecomunicações militares, definidos em Brasília. Gostou de tudo em Campo Grande e não deixou mais a cidade”, descreve Marcius de Castro.

O homenageado em família: "kardecista, humano e brincalhão"
O homenageado em família: “kardecista, humano e brincalhão”

Mauro voltou à cidade na companhia de Marília de Castro e dos filhos Daniela, Leandro e Graziela. Em 1990, iria casar-se com a psicóloga Dirce de Castro, tornando-se pai de Marcos Vinicius. Na ativa e na reserva, com a Plena Engenharia, Coronel Mauro realizou projetos para implantação das ligações de rádios em fazendas e ainda pelo levantamento para a instalação de repetidoras de sinais de tevê, no caso da Rede MS, realizando ainda toda a logística de implantação. Contava com uma espécie de carteira de fidelização que pode ter contribuído para as mais de cinco mil Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) que desenvolveu ao longo da sua atividade. Identificação com a região que o levou a ser reconhecido como cidadão campo-grandense em 2008.

A família de Pouso Alegre era sempre visitada, enquanto os pais estavam vivos. “Servi em Campo Grande para ficarmos juntos e fazíamos um Natal fora de época todo ano com a família. Mauro era carismático e também admirado pelo tratamento de igualdade que dava para todos. Um ser especial que levou a comunidade kardecista de Campo Grande a seu velório”, comenta Marcius. “Era brincalhão, muito humano. Um poeta que chegava a emoldurar versos para mim. Foi muito competente e querido pelos clientes. Acredito que ele se dedicou bastante e merece esta homenagem”, defende Dirce.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea